Tiago Moreira vai precorrer 50 mil quilómetros no seu Citroen 2CV de 1989---------------------------------------------
Advogado de 27 anos já começou viagem de seis meses do Porto para Pequim ao volante de um Citroen 2CV !
Tiago Moreira vai precorrer 50 mil quilómetros no seu Citroen 2CV de 1989“Matança do Porco”
Era Domingo.
Antes do sol nascer já os convidados da família alargada do Ti João Duarte entrava no pátio de estrume e mato, coberto de tojo e alecrim.
“A arte da matança não é p´ra qualquer um”, dizia o Ti João Duarte, que dava ordens ao Julião para ir buscar a banca e ao Joaquim para trazer a corda, a roldana e o chambaril.
O dono da casa continuava a dar ordens a toda a gente e gritava:
“Ó Jaquina, trás lá os alguidares, a colher de pau, a cebola, o sal e o vinagre!”
E resmungava: “Raio das mulheres qu´é preciso dizer-lhes tudo!”
Era uma roda viva.
O Julião, o Jaquim e o Mateus foram buscar o porco à pocilga, preso por uma corda a um pé, e conduziram-no até à banca.
Ali, amarraram-no de pés e mãos, com a ajuda dos homens mais valentes, e içaram o animal para cima daquele estrado da morte.
O bruto, de algumas arrobas, grunhia e esperneava como que adivinhasse o fim que o esperava.
As mulheres cavavam um buraco no chão do pátio para onde acarretavam tojo, mato e lenha.
Ti João Duarte, de calças justas, jaleca e barrete enfiado na cabeça, lavava, com água quente, a goela do porco, que não parava de guinchar, apertado, no patíbulo, por quatro homens de mangas arregaçadas.
Ti Jaquina coloca debaixo da banca o alguidar de barro onde havia posto o vinagre, o sal e a cebola.
O magarefe, agora com um avental a tapar-lhe a jaleca e as calças apertadas, e de grandes panos atados à cintura, depois de afiar o facalhão de dois gumes no fuzil, crava-o, num gesto rápido e frio, na goela do animal.
O sangue esguicha para o alguidar onde é mexido com a colher de pau pela mão da Ti Jaquina. O porco guinchou, guinchou, até que deu as últimas.
Julião, de forquilha em punho, acarreta o tojo a arder para cima do morto, a fim de o chamuscar.
Outros homens, com facas e cacos de telha, raspam o porco que vai ficando mais limpo.
Descalçam-lhe as unhas, lavam-no com água bem quente e, por fim, cortam-lhe as orelhas e o rabo.
De volta da fogueira, agora com ignição, o grupo assiste à assada.
Os cachopos furam por entre as pernas dos adultos, na esperança de lhes calhar um quinhão.
No barracão, uma mesa muito grande com pão caseiro, azeitonas e água-pé, vai ser o centro da festança.
Enquanto isto, Mateus e Julião enfiam o chambaril nos pernis do sacrificado, a uma ordem do Ti João Duarte e, puxando pela corda, através da roldana, presa na trave do barracão, penduram o animal que ali fica a escorrer para dentro dum “tinajo”, depois de ser aberto e de lhe tirarem a bexiga, disputada pela rapaziada para fazer de bola de futebol; o fígado, os bofes, os rins, o baço, o coração e a toalha das tripas, tudo migadinho para dentro duma sertã com azeite, vinho tinto e temperos a fim de preparar o almoço a que dão o nome de cachola; as tripas que hão-de ser lavadas com sal e limão no Rio Alviela, numa corrente de água cristalina, com a ajuda de uma vara fininha.
Uma balança de pilão, presa à trave, ao lado do porco, reza o peso limpo.
A cachola já cheira bem.
Há alegria estampada no rosto de toda a gente.
A grafonola ajuda. A pinga, também.
Dois homens fazem cigarros com tabaco «Duque» e mortalhas de papel «Zig-Zag».
As raparigas, numa roda, dançam e cantam:
- O Saramago é que atrasa
- A seara ao lavrador
- Bem atrasada qu´eu ando
- De falar ao meu amor.
Ti João Duarte pega na concertina de duas escalas e toca um corridinho que faz toda a gente andar numa fona.
“Todos prá mesa” – grita a dona da casa.
E lá se vão chegando, deixando a testeira para o Ti João Duarte.
Falam todos ao mesmo tempo, euforicamente.
Conta-se o que foi a vida daquele animal e das canseiras que deu, animal sacrificado para a legria do grupo e o sustento de luxo daquela família.
O resto do dia é acompanhado com água-pé nos intervalos dos preparativos para a tarefa da desmancha que há-de ocorrer no dia seguinte.
Estamos na segunda-feira, e porque é dia de trabalho, o grupo só volta a reunir-se à noitinha para o jantar de febras fritas, no azeite, com louro e alho.
“Jaquina” – chamou o marido – “onde raio puseste tu o serrote e o cutelo?”
Finalmente o porco começa a ser desmanchado.
Separam-se as diversas partes.
O toucinho, depois de preparado, vai para a salgadeira.
A banha para fazer, ainda hoje, as farinheiras.
As carnes negras de sangue são migadas para a feitura do chouriço negro que leva vinho tinto, sangue, cominhos, cravo de cabeça, pimenta e sal, tudo de marinada durante quatro dias num alguidar de barro.
As carnes magras são, igualmente, cortadas em pedacinhos para fazer o chouriço de carne e colocam-se noutro alguidar com vinho branco, pimentão, louro, alhos e sal, até que ao fim de cinco dias hão-de encher a tripa.
Chega-se a quarta-feira. É dia de encher os negros, atar e pôr no fumeiro.
As mulheres pegam na tripa e enfiam nela uma enchedeira – género de funil – por onde empurram as carnes negras, com a ajuda dos polegares.
O resto, a que chamam o caldo dos negros, será o jantar de amanhã, de novo, para toda a família, tal como aconteceu hoje e que foi constituído de tripas com arroz e nabiça, manjar delicioso, a julgar pela sofreguidão de todos.
Ti João Duarte faz o balanço destes quatro dias bem passados e marca a data para comprar no mercado de Pernes, o leitão que há-de fazer a festa igual, daqui a um ano.
Nessa altura lá estarão todos, Outra vez. No mesmo ritual.
………………………………………………........